quarta-feira, janeiro 08, 2003

O CASO DOS MARRECOS

Rodrigo Coimbra


Ontem cheguei um tanto cansado em casa. Meu consultório veterinário esteve cheio o dia todo. Conheci de bicho-de-pé em cadela granfina à peste da braba, de dar ferida em carne e osso, durante as oito e poucas horas em que lá estive.


Precisava descansar bastante. Filme de qualidade reservado em locadora do bairro e lá estava eu abrindo o portão. Ainda não notara a presença, mas foi só caminhar em direção à cozinha que ouvi a marrecada batendo papo ao lado da janela.


- “Que barulhada! De onde veio isso?” – pensei.


Minha noite de sossego encerrava-se naquele minuto. Passaria toda ela ouvindo aquela turma tagarela, marrecando, que nem fofoqueira de lavanderia.


Foi aí que meu tio chegou. Como eu morava em barracão de fundo da casa principal, tio aparecia sempre que queria sem que fosse necessário toque de campanhia ou bater de palmas.


- Viu a marrecada que arrumei?


- É, vi. Sinhô comprou?


- Não, um freguês deixou comigo a troco de mel. Comprou quantidade graúda e saiu daqui de beiço doce. Ocê podia dar uma olhada neles pra mim... vê se a saúde tá em dia.


Era minha chance. Ou me valia de ética profissional e analisava bichim por bichim ou arrumava doença de matança e rogava praga no meu infortúnio.


Foi aí que catei o primeiro pelo pescoço e já abri asas dizendo: - Esse aqui tá bom. Gordo, garganta firme, goela comprida e peito musculoso. Nem tem pena encravada.


Já no segundo fui mais cauteloso. Levei mais de minuto olhando o bichim e ele tagarelando assustado. – Tio! Onde foi que o sinhô arrumou bicho como esse?


- Já te disse. A troco de mel.


Nesse momento já pensava na minha noite de tranqüilidade e fazia quase que boletim médico: - Esse aqui tá com coisa braba. “Papilos sanguinus” na certa.


- Dá pra traduzir? – afoito.


- Mal que mata pela garganta. A pele cheira mal e solta pena pra mais de dois cocares. O jeito é o sinhô dar sumiço neles rápido, leva de volta, porque senão sobra até pro cachorro.


Meu tio baforava e suava de raiva. Pegou cinco numa mãozada só, tudo apertado pela garganta. Não soltaram nem pio desta vez. O outro ficou no braço canhoto.


Foi que nem raio de trovoada. Chegou de uma vez, com força de arrebentar. Pegou tudo quanto era vidro de mel, botou na capanga, ajustada na pança, e saiu dando soco no ar, matando mosquito com olho. Brabo que nem leão!!!


Eu lá em casa... Quando vi tinha polícia batendo na porta. Caso contado no “B.O”, saí de consciência pesada em troca de noite sossegada. Entrei em casa, olhei da janela... Juro que já sentia até falta deles. Deveriam estar contentes antes da minha chegada. Olhei a estante, dei uma espiada nos livros e acabei dormindo com a leitura do livro “O Patinho Feio”.


Carlos Pereira

Duda Fonseca

Pereira. Este era o seu nome. Por mais que achasse ruim, não tinha jeito, era sempre chamado assim. Não entendia o motivo pelo qual todos os seus amiguinhos eram chamados pelo primeiro nome ou até pelo apelido e ele era o único a ser chamado pelo sobrenome, Pereira. O que haveria de errado com o seu primeiro nome? Se pelo menos morasse na Inglaterra para que se justificasse tamanha formalidade: Qual era o problema de ser chamado de Carlos? Poderia ser até Carlinhos, mas Pereira não ousava sonhar tão alto.


A verdade é que junto com a meninada da vizinhança Pereira era uma espécie de sumidade. Todos o amavam. Era o melhor em diversas brincadeiras, principalmente adedanha. Está certo que não era o melhor nos jogos que implicavam correria ou algum esforço físico - Pereira estava um pouco acima do peso - e, no futebol, sempre era o juiz. Mas como a meninada o respeitava... Era, de longe, o mais inteligente da turma e até dava conselhos e ajudava a quem lhe pedia nas lições de casa.


É, Pereira, tão querido, mas ainda chamado assim.


Até que um belo dia a vizinhança amanheceu mais triste. Pereira, que sofria de complicações respiratórias, foi parar no hospital e não voltou mais. A criançada não tinha notícias e seus pais falavam que logo, logo Pereira voltaria. O tempo ia passando e Pereira não voltando. Passado algum tempo, chegou a notícia de que Pereira tinha se mudado dali. Para um lugar muito longe, mas que tudo estava bem e Pereira estava muito feliz. Foi coisa de última hora, nem Pereira sabia para onde ia. Dessas coisas que acontecem de repente sem que ninguém programe ou algo assim. A meninada triste se conformou. Aos olhos deles, se Pereira não estava mais com eles, ao menos estava em um lugar onde poderia brincar. E nisso a meninada continuava brincando, mas sempre faltava alguém para apartar as brigas e dar idéias geniosas.


O que eles não sabiam é que, de vez em quando, Pereira aparecia para dar uma espiada. Mesmo contrariando ordens superiores. Ele não resistia. Pouco tempo depois, apareceu no noticiário, num daqueles jornais sensacionalistas, que um tal fantasma estaria brincando com as crianças de um bairro da periferia. Era um fantasma de um senhor, já idoso, que tinha falecido, mas não suportava ficar sem brincar. Ninguém deu muita atenção à notícia, assim como insistiam em chamá-lo de Pereira.


Paola Nazar

Outro dia, ainda era cedo, saí de casa. Parecia um dia comum, como aqueles dias em que o estômago dói, quando o relógio marca duas horas e o sono pega. Seria mais um dia para se falar alguma bobagem e dar risadas, abster das malvadezas que o travesseiro me faz.


Cheguei para trabalhar como em um dia qualquer. Nem mais, nem menos, apenas igual.


Com tantas coisas acontecendo o tempo todo deixa-se de pensar em algumas coisas – talvez isso seja bom, não pensar, às vezes, pode ser realmente proveitoso. Mas me perguntar se sou feliz? Isso já é demais. É muito embaraçoso pensar em melindres indefiníveis. Fiquei com uma coceirinha no dedo, igual a bicho de pé, me incomodando. Insatisfeita pela ausência de respostas, fui ao Aurélio: Felicidade: “Qualidade ou estado de feliz; ventura, contemplamento”. Achei que era pouco e procurei alguns textos na internet, que verdadeiramente não me acrescentaram nada. Fiz alguns cálculos, quase matemáticos, e pensei que talvez a felicidade pertencesse somente às crianças, como se só elas fossem dignas de um sentimento tão puro e tão simples que se torna complicado para alguém que já passou dos dez. Ainda acrescentei que para ser feliz essa criança não deveria morar em uma cidade grande e cheia de carros. Isso a perturbaria muito.


Não tenho filhos e não os desejo tanto agora, não nesse momento, mas talvez ser feliz seja a maternidade. Um lindo bebê que te espera, depende de você e sorri por qualquer gesto seu. Talvez isso seja felicidade. Tenho uma prima que disse ser, um filho, o verdadeiro sentido da vida. Mas filhos ficam doentes, crescem e depois a culpam por tudo de ruim que acontece. Se o namorado deu um fora, a culpa é da mãe. Se foi mal no colégio, a culpa é da mãe e se está acima do peso, a culpada também é ela. Foi assim comigo. Não acho que seja eu a verdadeira felicidade da minha mãe, nem do meu pai.


Pensei, então, que talvez ser feliz fosse ter uma casa no campo para guardar os livros, discos e nada mais. Mas eu detesto solidão e uma casa, discos e livros não falam e me sentiria muito só quando a noite chegasse.


Com tanta frustração e um pouco de desespero por não saber o que é ser feliz e, ainda, por não saber se sou tão ditosa, resolvi que a partir daquele momento não mais pensaria sobre o assunto. E quanto a minha interlocutora: ela que fosse se danar.


A conversa é sempre a mesma

Rodrigo Coimbra

Conversa de ônibus. Horário? Bem, no momento eram 16:50. Três passageiros, dois já sentados. O outro caminhando pelo corredor em busca do assento livre. Ônibus cheio. Muitos de pé, entre esses, eu. Começo a pescar a conversa:


- E seu time, heim? – Nossa! Nem me fala. – Não vou ao Mineirão nunca mais – exclamou o terceiro.


Eu lá, mero passageiro, ouvindo e analisando...


- Ano passado eu tinha prometido, mas esse ano... Agora deixo de ir mesmo.


Torcedor é sempre assim. É só o time se dar mal em campeonato valioso que já começa a perder cabeça.


- Não sei quem é mais sem-vergonha. - Se são eles ou nós, né? – Eu gasto quase R$50,00 de cada vez!


Quem seria o sem-vergonha, na verdade? Não chegaram à conclusão alguma, nem eu, mas continuaram...


- Esse time não tem compaixão de torcedor! – E eu que saí lá de Venda Nova?


Bem, quanto a isso, tem gente que vem de muito mais longe. Já pensaram nesses? Acho que não.


Mas quanto ao cinqüenta reais... Levando-se em conta a cerveja a dois reais, o tropeiro (esse nunca pode faltar, pelo menos pra torcedor de cinqüenta por partida) a dois e cinqüenta, mais um picolé – dois reais e cinqüenta, estacionamento a três e o ingresso a cinco (último jogo) para gastar isso tudo deve-se beber e comer em torno dos quarenta. Se bem que pelo porte de touro, não podia ser menos que isso.


Torcedor é torcedor em qualquer lugar, não há dúvida. Reclama, reclama, reclama, mas é só passar pras oitavas que está lá de camisa no peito e bandeira em punho. Se possível, sacudindo arquibancada e cantando hino de “a” à zê. São coisas do futebol... Com cartolagem quase no fim, vale competência de homem de trava no pé. Quem tiver ginga de corpo e comando de patente, vence em terras de outros donos. Assim tem sido e espero que continue sendo. Uns ficam e outros continuam dando dor de cabeça pra torcedor fanático. Seja Galo, seja Raposa, a conversa é sempre a mesma.